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26/08/2011 às 17:05 por Geral
Igreja funciona dentro de boate na rua Augusta
créditos: gospel prime

Rua Augusta, 486. Às 3h de um sábado, dezenas de pessoas se aglomeram em frente ao Clube Outs, uma das muitas casas noturnas da região.

Para entrar, é preciso enfrentar seguranças engravatados e desembolsar R$ 20. Lá dentro, flanelados, tatuados e emos dançam hits da música pop dos anos 1980 e 90.

No dia seguinte, por volta das 18h, a casa continua a mil. Mas as portas estão abertas a qualquer um. Sob a luz de holofotes, uma banda anima um público jovem. Num telão, letras de músicas sobre louvor e compaixão. No bar, as garrafas de Smirnoff e Heineken permanecem intocadas.

O show termina, e Junior Souza, 37, surge. Veste uma camiseta preta estampada com o símbolo matemático que representa o ?diferente?, tem o antebraço tatuado e brinco na orelha.

Dá alguns avisos, indica o lugar onde fica a caixinha de contribuições e anuncia pelo microfone: ?Agora a gente vai fazer um intervalo e já continua o culto, beleza??.

A pausa serve para que os fiéis da Capital Augusta possam trocar ideias. A Capital, como os habitués a ela se referem, é uma igreja protestante, fundada em 2009 pelo pastor Junior. O grupo inicial era formado por músicos, designers e gente que ?já vivia a vida da Augusta?, segundo o pastor, que é professor de inglês e dá aulas na Faculdade Teológica Metodista Livre.

Quando o intervalo termina, Junior, de frente para um laptop, começa a ler um versículo da Bíblia. Carismático, ele às vezes quebra a leitura e traduz um trecho sagrado para uma fala informal.

A maioria dos presentes ainda não chegou aos 30 anos. São jovens antenados, que compartilham sua fé no Facebook e no Twitter. No site da igreja, são disponibilizados podcasts religiosos.

Dono de um corpo tatuado, o skatista e publicitário Bidu Oliveira, 20, diz que sofreu preconceito em outras igrejas e ali encontrou uma comunidade. ?O foco aqui é Jesus?, justifica.

A Capital permite a ingestão de bebidas alcoólicas, desde que com moderação. Sexo, melhor dentro do casamento. ?O projeto ideal é a castidade, mas, se não é essa a sua realidade, vamos seguir o caminho da reparação?, aponta o pastor. Gays são bem-vindos. ?Na Augusta, é natural que eles frequentem. Nosso slogan é: ?Proibido Pessoas Perfeitas?.?

Além do culto no Outs, há reuniões semanais nas casas dos integrantes. ?Ali dividimos as alegrias e frustrações da vida em SP?, diz Junior, um paranaense de Assis Chateaubriand.

Antes de chegar à capital, ele era ligado, no interior, a uma igreja Vineyard, associação criada na Califórnia dos anos 1970. Não gosta de ser chamado de evangélico. ?Tenho vergonha do que esse termo se tornou no Brasil?, confessa.

O aluguel do imóvel na Augusta é bancado por 12 pessoas da liderança da Capital. O dinheiro das doações, segundo o pastor, vai para missões religiosas e outras instituições. Valentim Van der Meer, promoter da boate, diz que aceitou alugar o espaço por simpatizar com a igreja. ?É o mesmo público que frequenta o Outs na balada.?

Por volta das 21h, o culto termina ao som de Metallica. Por uma coincidência irônica que só uma rua tão augusta pode permitir, a poucos metros dali, no número 501, fica o Inferno Club. ?É legal ter uma igreja na porta do inferno, mas, infelizmente, ele não está acessível. Eles cobram o dobro do aluguel daqui?, diz o pastor, rindo.



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